Crítica – Blade Runner 2049

Uma obra-prima visual, mas que se perde na narrativa

Quando o visionário diretor Ridley Sccott resolveu adaptar (ou algo parecido com isso) o livro Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas (Do Androids Dream With Eletric Sheeps, em inglês) do gênio da literatura Philip K. Dick, o resultado foi uma obra comtemplativa, e incompreendida. O primeiro Blade Runner trazia um visual lindo, em uma Los Angeles futurista (2019, no filme), com carros voadores, armas e androides semelhantes a humanos, os replicantes. Com Harrisson Ford como o protagonista Rick Decard, um caçador de androides renegados, o filme se mostrou complexo e cerebral demais para a época, e se tornou sucesso apenas anos depois, quando chegou ao mercado de DVDs e se tornou filme cult. O visual cheio de neon, a trilha sonora da banda Vangelis, e a melhor frase de improviso da história do cinema (obrigado, Rutger Hauer, pelas lágrimas na chuva), o filme é considerado hoje uma obra-prima do gênero tanto ficção cientifica quanto do recém-nascido gênero cyberpunk.

Desde que foi anunciado, a esperada (ou seria inesperada?) sequência do filme de 82, que seria dirigido pelo renomado Dennis Villeneuve (A Chegada) e estrelado por Ryan Gosling (Driver, La la land), Jared Leto e o próprio Harrison Ford, que retornaria como Decard, o frisson gerado foi enorme. Afinal, a expectativa era grande, dada a capacidade do diretor e dos milhares de fãs, tanto do filme quanto do cyberpunk que esperavam um filme digno da obra de Ridley, e os trailers pareciam apontar que tudo correria para uma sequência memorável.

Visualmente falando, o filme é espetacular. Sério, ele é fortíssimo candidato a um dos filmes mais belos do ano, com tomadas contemplativas e espetaculares de neons, hologramas, veículos e apetrechos futuristas que fizeram a cabeça de dezena de fãs de ficção saltarem. O concept design de cenas, veículos, e armas é muito bem construido, e as cores fazem um papel importantíssimo no decorrer do filme, realçando situações e momentos marcantes (como a cena em que K encontra Decard, em um cenário totalmente laranja). As roupas, figurinos, e efeitos especiais também são mais do que eficientes, chegam a ser transcendentes pela sua beleza e complexidade. Arrisco a dizer que o Oscar de melhores efeitos especiais de 2018 tem um forte candidato com Blade Runner 2049.

O roteiro também traz bastante simetria, e cenas muito bem construídas. Nota-se que este é, como disse acima, um filme mais estético do que narrativo, apesar das escassas cenas de ação serem eficientes. Cada tomada, cada sequência é construída de forma a criar um quadro, como se estivéssemos assistindo não a um filme, mas a um quebra-cabeças que se completa não em suas partes, mas em seu todo. Todos os atores estão impecáveis aqui, em especial Ryan como o caçador de androides (agora bem diferentes da versão de 82), Robin Wright sempre competente como a superior Joshi, e Ana de Armas como a bela namorada artificial de K, e Jared Leto como o dono da Wallace Corporation, cuja excentricidade beira por vezes ao fanatismo religioso, inclusive citando passagens das escrituras. A trama central é implicitamente conectada ao fio principal do primeiro filme, o que traz uma grande coesão e magnanimidade à historia. Porém, para as pessoas que não viram o filme de 82, talvez o impacto pretendido não seja o mesmo. Afinal, este é, do começo ao fim, um filme feito para os fãs de Blade Runner, e as pessoas que nunca viram a obra de Ridley Scott certamente ficarão meio perdidas.

Porém, como nem tudo são flores, temos os pontos negativos. O filme, como disse, é contemplativo. Porém, ele se arrasta demais, trazendo sequências e flashbacks desnecessários  – a trama, apesar de boa, é de fácil entendimento (fui assistir com um amigo, e ele sacou o enigma do filme com uma hora e meia de exibição), e certamente não despendia 2h40 de duração. Além disso, o fio principal da narrativa se sobrepõe às tramas secundárias, algumas muito boas e que mereciam um desfecho mais adequado. Um exemplo é a rebelião da líder Freysa (Hiam Abbass) e seus replicantes rebeldes – que evoca o grupo liderado por Rutger Hauer no longa de 1982 – esse subplot é praticamente esquecido pelos roteiristas, que deram preferência ao desfecho da trama do protagonista. A impressão que temos aqui é que os roteiristas se esforçaram muito para criar algo grandioso, e de fato conseguiram; porém não foram capazes de dar um fechamento à altura de seu início.

Apesar das falhas e de perder muitas chances muito boas oferecidas pela narrativa espetacular, o filme é um prato cheio para os fãs de ficção cientifica e traz de volta muitas questões delicadas emuladas na obra original, inclusive trazendo uma nova leva de questões existenciais dignas de nota. Mas acima de tudo, este é um filme fascinante que se passa em um universo primoroso, e vale sim uma ida ao cinema, nem que seja para apenas apreciar suas belas tomadas e admirar seu visual incrível. Esperamos apenas que, assim como o Blade Runner de 1982 inspirou e ainda inspira muitos artistas e cineastas ao redor do mundo, este filme também contribua para manter o gênero cyberpunk vivo por um longo tempo.

Rafael Danesin não conta pra ninguém, mas na verdade é um caçador de andróides disfarçado de publicitário.

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