Crítica | Hang the DJ – O melhor episódio da 4ª temporada de Black Mirror

OBS: O texto possui spoilers do episódio. Leia por sua conta e risco.

A 4ª temporada de Black Mirror veio carregada de expectativas. Entretanto, após sua estréia, veio uma chuva de críticas negativas sobre o retorno da série questionando sobre uma queda em sua qualidade, afinal, Black Mirror sempre foi marcada por trazer histórias impactantes sobre o comportamento humano perante a tecnologia. Muitos afirmam que na época em que era produzida pelo Channel 4 (e eu me incluo nesse grupo), a série tinha mais camadas e seus roteiros eram mais elaborados. Mas, naquela época, cada temporada possuía apenas 3 episódios e após a 2ª, veio o incrível especial White Christmas no fim de 2014 (o melhor episódio da série inteira). Embora eu pense como muitos, sobre a melhor fase de Black Mirror ser a do Channel 4 (graças a um amigo que me apresentou a série <3), eu gosto muito da 3ª temporada produzida pela Netflix, onde Charlie Brooker soube brincar de gêneros do cinema em cada um dos 6 episódios. Contudo, nesta 4ª temporada houve um pouco disso também, porém alguns episódios realmente foram meio dispensáveis pelo roteiro um pouco falho (estou falando especificamente de Arkangel, Crocodile e Metalhead). Em contrapartida, Brooker trouxe outros 3 que na minha opinião se destacaram: USS Callister (apesar do final previsível), Hang the DJ (o amorzinho dessa temporada <3) e Black Museum (uma homenagem à toda a série). Mas estou aqui pra falar mesmo sobre Hang The DJ, o quarto episódio dessa temporada e um dos mais bem “Black Mirror” também. (Explico já já porque ele é muito Black Mirror, meu!)

Antes de assistir esse episódio, eu realmente achava que nunca haveria outro em Black Mirror que me faria terminar com um sorriso no rosto como aconteceu ao terminar de assistir San Junipero na temporada passada. Acontece que eu estava errada e enquanto eu preciso de um pouco mais de tempo para digeri-lo, Hang the DJ tem todo o potencial para ser um dos meus episódios favoritos da série.

É um daqueles episódios que tem um conceito perfeitamente simples, mas tem tanta profundidade emocional ao mesmo tempo. De início, a premissa da trama parece ser algo como o filme O Lagosta, com Colin Farrell e Rachel Weisz, onde num futuro distópico, as pessoas vão para um espécie de hotel com o objetivo de encontrar seu parceiro ideal. Mas em Hang the DJ, a história é bastante diferente e isso vai ficando evidente ao fim do primeiro ato. Há uma leve semelhança ao mostrar “uma civilização” que parece ter o único propósito de encontrar um parceiro de vida, ou, como se refere aqui, o match perfeito. Aqui somos apresentados aos protagonistas Frank (Joe Cole) e Amy (Georgina Campbell), que se encontram em um restaurante através de um aplicativo de namoro chamado The System (uma espécie de evolução do Tinder com o sistema operacional Siri). E esse sistema é como um guia para os casais, informando o período que aquele encontro pode durar: pode ser 12 horas, 2 semanas, 1 ano…e como o sistema diz para eles: “tudo acontece por um motivo” e cada experiência, boa ou ruim, irá alimentar os dados levando o “sistema” a encontrar o seu melhor match, com o detalhe de que este aplicativo possui uma taxa de sucesso de 99,8%.

A parte intrigante sobre a primeira metade de Hang the DJ é que o “Sistema”  basicamente parece ser a ferramenta mais lógica e ideal para os encontros. À medida que os algoritmos que medem o comportamento humano e as preferências ficam cada vez mais sofisticados, por que não confiamos em algum tipo de aplicativo para assumir o caminho da nossa vida amorosa? E o roteiro de Charlie Brooker brinca com esses questionamentos à medida que nos afeiçoamos ao casal protagonista. Frank e Amy possuem uma química tão verossímil assim como seus intérpretes (Cole e Campbell).

Outro ponto interessante no decorrer da história é: O que a fórmula do Sistema sabe sobre o que nós fazemos ou sentimos? Quando Frank entra em tentação após combinar com Amy em não olharem o tempo que possuem juntos no segundo encontro, e verifica esse tempo no Sistema, este diz 5 anos. Mas então, “recalibra” para 3, pois Frank viu a informação sem Amy. E então, 18 meses. 3 semanas. E por fim, 20 horas. E aí, tudo vai por água abaixo. Até o momento em que Charlie Brooker nos entrega uma reviravolta criativa. Aquela pergunta de “O que está realmente acontecendo?” invade nossas cabeças em certo momento e logo após descobrimos que Frank e Amy não são reais. Eles são uma simulação. São pedaços de um código dentro de outro aplicativo de namoro do mundo real, onde o algoritmo conclui que eles combinam 99,8% e são um match perfeito. E enfim, dentro de um pub ao som da música Panic dos Smiths, a Amy do mundo real olha para a foto do verdadeiro Frank em seu aplicativo e sorri para ele, que está encostado no balcão do bar.

Para criar uma história rica em camadas em um curto espaço de tempo (51 min.), todo o desenvolvimento tem que ser elogiado, e a escrita de Brooker garante que nenhum segundo é desperdiçado, enquanto a bela direção de Timothy van Patten garante que as idéias tenham amplo espaço de crescimento para fazer o expectador imergir na atmosfera do episódio. E são justamente pontos como esse que tornam Hang the DJ um episódio bem Black Mirror em sua essência. Afinal, o roteiro inteligente que desenvolve a profundidade sobre o comportamento humano que tem ali a tecnologia como um pano de fundo está 100% (ou 99,8% haha) presente no episódio. E, além disso, todo o design de produção e fotografia também são elementos que trouxeram a ele um ar que é muito a cara das origens de Black Mirror. E os episódios não precisam sempre terminar com alguma tragédia ou algum tom mais sombrio para configurar-se como a “verdadeira essência” de Black Mirror. Hang the DJ assim como San Junipero estão aí para provar isso.

Também quero destacar a trilha sonora deslumbrante composta por Alex Somers e a banda Sigur Rós, que fornece o cenário minimalista perfeito, enriquecendo ainda mais esse excelente episódio.

Antes do plot twist, estamos acompanhando dois seres humanos se apaixonarem. Após esse twist, percebemos que o que assistimos é realmente o começo de um possível amor que ainda não vimos e o papel que a tecnologia (criada por outros seres humanos) desempenhou ao juntá-los.

A história de Frank e Amy é real mesmo que não seja. Toda a matemática, tecnologia e algoritmos do mundo podem combiná-lo com seu match perfeito. Para se apaixonar por essa combinação, no entanto, significa encontrar a coragem de dizer “Eu quero isso e foda-se o resto”. Ou nas palavras de Morrisey:

Burn down the disco

Hang the blessed DJ

Because the music that they constantly play

It says nothing to me about my life

FICHA TÉCNICA:

Gênero: Drama, Sci- Fi
Direção: Timothy Van Patten
Roteiro: Charlie Brooker
Elenco: Joe Cole, Georgina Campbell, George Bladgen, Gwyneth Keyworth, Gina Bramhill, Jessie Cave, Luke Manning, Che Watson, Bruce Chong
Produção: Annabel Jones, Nick Pitt

Fotografia: Stuart Bentley

Design de produção: Joel Collins

Figurino: Claire Anderson

Trilha Sonora: Alex Sommers, Sigur Rós

Duração: 51 min.

País: Inglaterra

Ano: 2017

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