ENTREVISTA | J. MODESTO

Entrevista com o autor paulistano J. Modesto, nascido em 1966 e formado em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, que lançou ano passado o livro “Vampiresa” pela editora Livrus.

 

Sempre começo a entrevista com autores com essa pergunta, que talvez seja a mais batida de todas, mas considero muito importante fazê-la a um escritor. O que lhe motivou a se tornar escritor? Quais autores lhe influenciaram? Quais os seus livros favoritos?

R: Também acho que esta é a pergunta que mais respondo! (risos) Bom, vamos lá! Na verdade, tornar-me escritor foi uma evolução natural da minha caminhada como leitor. Comecei a gostar de literatura muito cedo, lá na infância, quando minha mãe me dava os gibis da Turma da Monica para ler. Então evolui para os quadrinhos da Marvel e DC, os manuais da Disney (adorava o do Zé Carioca, sobre futebol, e o do Mickey, sobre detetives). Com isso, também evoluiu minha exigência com relação aos conteúdos, passando para os livros. Li de tudo, tendo fases, tais como: Policial (Agatha Christie, Edgar Wallace), Erótico (Judith Krantz, Harold Hobbins, Cassandra Rios), Aventura, em especial os envolvendo artes marciais, pois na época praticava karatê (Marc Orsen, James Claves), e tantos outros, até finalmente conhecer o Terror, através de H. P. Hovecraft. Daí veio outros “gênios” do gênero, tais como Bram Stoker, Clive Barker, Stephen King, Mary Scheller, e Edgard Allan Poe. Passei, então a escrever pequenos contos, com narrativas que misturavam suspense, mistério, artes marciais e terror, baseadas numa outra paixão, o cinema. Li muita coisa de autores nacionais, em especial André Vianco, Martha Argel, Nelson Magrini e Giulia Moon, que depois vim a conhecer pessoalmente, e nos tornamos amigos. Foi de um de meus contos, que desenvolvi meu primeiro romance Demônio Elemental, que anos mais tarde viria a ser publicado com o titulo de Trevas. Gosto de todo eles, mas Trevas tem um lugar especial em meu coração por ser meu livro de estreia e carregar um pouquinho de tudo o que gosto.

 

Você possui contos e livros que falam sobre vampiros. Como surgiu o fascínio pelo tema?

R: Gosto muito de vampiros, por considerar ser dos seres fantásticos os mais completos, mas não gosto muito de só escrever sobre vampiros, apesar de serem os seres fantásticos mais apreciados pelo público. Busco diversificar, tanto que meu segundo e quarto romances não envolvem vampiros. Tenho fascínio por diversos temas, em especial lendas urbanas e folclore e tento produzir obras que tragam alternativas aos leitores, que não só vampiros.

 

Seu mais novo lançamento foi o livro “Vampiresa” pela editora Livrus. Poderia nos contar um pouco sobre a história dessa obra?

R: Bem, Vampiresa quase que não foi o livro da vez. Estávamos trabalhando no lançamento de Missão Divina, que foi escrito baseado num roteiro que fiz para a produtora de cinema Balada, para participarem de uma licitação para uma série de aventura para a TV Brasil, mas a participação na licitação não rolou. O texto continua com a produtora, que busca patrocinadores para realizarem um curta de outro texto meu intitulado O anjo e a vampira. Contudo, na última hora, meu editor resolveu publicar algo semelhante ao Trevas, meu título de maior sucesso. Tentei convencê-lo a publicar a continuação, que atualmente tem o titulo provisório de Trevas: Legado Vampiro, mas ele argumentou que ainda não era o momento. Então apresentei Vampiresa, um texto finalizado em 2011 e que traz de volta a vampira dos meus contos publicados na coletânea Amor Vampiro. Vampiresa é uma versão feminina de Trevas, que conta com a participação do vampiro Jean, um dos protagonistas de meu primeiro romance. Não vou adiantar nada para não estragar a leitura, mas quem gostou de Trevas, certamente irá gostar de Vampiresa.

 

Em 2004, você publicou o livro “Anhangá”, cujo título refere-se a um personagem do folclore indígena brasileiro. Como foi a pesquisa para este livro?

R: Bem, Anhangá não foi publicado em 2004, mais sim em 2008, ano em que também participei da coletânea Amor vampiro. Esse título tem um fato curioso. Em 2006, quando publiquei Trevas, debutando no cenário literário nacional, achei que teria um tempo para começar meu segundo romance. Contudo, como o meu primeiro livro estava com um estava sendo bem aceito pelo público, o editor me pediu um novo titulo para o ano seguinte e eu não tinha nada. Foi um sufoco! Aprendi que um escritor sempre tem que ter originais a mais prontos, na gaveta, de preferência de temas diferentes, para apresentar ao seu editor quando solicitado.

 Anhangá foi um trabalho que reuniu uma pesquisa extensa, que levou quase 11 meses. Tive que buscar material sobre o modo de vida de nossos índios, o que era escasso na época, além de estudar tupi-guarani, pois desejava utilizar a língua mãe em algumas passagens da narrativa. Anhangá, desde os primeiros rabiscos, teve 11 versões, sendo a ultima a que chegou ao público. Foi, de longe, o título que mais me deu trabalho, mas foi recompensador. É uma obra que não deixa o leitor impassivo. Ou você adora ou odeia e é esse que acredito ser o papel do livro, mexer com o leitor.

 

Em 2014, você lançou o livro “Joelma – Antes da Escuridão”. Como foi para você, escrever essa ficção inspirada numa tragédia real? Como surgiu a ideia de falar sobre o edifício Joelma, local onde ocorreu um terrível incêndio em 1974 que provocou muitas mortes?

R: O projeto do Joelma surgiu no ano de 2010, numa conversa com meu editor, onde discutíamos projetos para as próximas publicações. Novamente insisti que não queria escrever sobre vampiros e a ideia de escrever sobre uma lenda urbana foi colocada em discussão. Eu já havia incursionado pelo realismo fantástico (narrativas ficcionais baseadas ou mescladas com fatos reais) em Anhangá, o qual uso o Padre Anchieta. Ter então como tema do próximo livro a maior lenda urbana paulistana nos pareceu uma boa ideia. Foi então que passei a realizar as pesquisas necessárias encontrando vasto material, que daria uma trilogia. Então se tomou a decisão de partir para a confecção da obra. O primeiro volume se passaria nos primórdios da maldição do local, o segundo na época do incêndio e o terceiro após a tragédia, mais para os dias atuais.

  Contudo, no desenvolvimento da escrita, acabou-se por se decidir por apenas dois volumes, visando lançamento para 2014, quando o incêndio completaria 40 anos. Ao chegar na data definida, apenas o primeiro volume estava concluído e a editora decidiu publicá-lo, deixando o segundo volume para o ano seguinte, pois nada comprometeria a leitura, uma vez que as minhas narrativas, apesar de se passarem num mesmo universo, são independentes. Por problemas mercadológicos, Joelma – Dentro da Escuridão ainda continua inédito, mas nada que comprometa a história de ambos, porque o que liga as narrativas é apenas o terreno amaldiçoado.

 

Achei interessante a ideia de um livro que promove o encontro do filósofo Arthur Schopenhauer com a figura mítica do vampiro. O que os leitores podem esperar do livro “Vampiro de Schopenhauer”?

R: Bem, Vampiro de Schopenhauer chegou ao público devido um atraso no trabalho de Joelma. Buscando entregar aos meus leitores títulos com uma periodicidade razoável, meu editor me pediu um original para que fosse lançado exclusivamente em e-book. Na verdade ele queria um conto. Foi então que lhe falei sobre o conto Amigo de Schopenhauer e ele pediu para ler. Era um conto de pouco menos de 15 páginas, que acabou por fasciná-lo, e ele me perguntou se não dava para transformá-lo em um romance. Disse que sim e ele então me deu 6 meses para lhe entregar o texto pronto, pois tinha que publicar alguma coisa minha e queria que fosse o Schopenhauer.

 Depois de 6 meses, e após ter lido uma biografia de Schopenhauer de mais de 600 páginas, entreguei o original de Vampiro de Schopenhauer, o qual foi publicado. Apesar de não ter uma estrutura de romance – está mais para noveleta (semelhante ao “O Alienista, de Machado de Assis) – a narrativa ficou boa, conseguindo transmitir a personalidade e a filosofia do “Dr. House da Filosofia”, dando uma introdução a temas filosóficos como a imortalidade e a morte sem ser enfadonho e com boas cenas de ação, uma das marcas registradas de meus textos.

 

Como surgiu a antologia de contos “Amor Vampiro”, que conta com a participação de André Vianco e que recebeu o prêmio Codex de Ouro 2011, na categoria melhor coletânea?

R: Eu me lembro disso como se fosse ontem. Estava num evento de Harry Potter divulgando meu livro publicado no ano anterior (Trevas), junto com meu editor, conversando sobre o mercado editorial de terror, quando a Martha Argel e a Giulia Moon, que também participavam do evento divulgando seus livros, começaram a participar da conversa e uma delas, não me lembro qual, sugeriu ao meu editor, que ele publicasse uma coletânea de contos, reunindo autores nacionais de literatura fantástica. Após pensar no assunto, o Ednei (Editor) concordou, mas com algumas condições. A coletânea teria a participação de seis autores, entre eles eu. Após diversas consultas e pesquisas, o Ednei conseguiu reunir 5 ícones da literatura fantástica nacional da época, sendo eles: Martha Argel, Giulia Moon, Regina Drummond, Nelson Magrini e o escritor e multimídia, especialista em vampiros, Adriano Siqueira. Estava formado o time. Outra condição era que a coletânea teria um tema: Amor envolvendo vampiros. Cada autor deveria desenvolver dois contos, um voltado para o publico feminino, outro para o masculino. Após a entrega dos contos, o editor convidou o André Vianco para fazer o prefácio da coletânea que, após ver os nomes dos autores, perguntou se não poderia participar com um conto, sendo imediatamente incorporado ao time. Assim nasceu Amor Vampiro, publicado em 2008, sendo premiado em 2011 com o Codex de Ouro de melhor antologia em conjunto. Até hoje Amor Vampiro é lembrado e considerado um divisor de águas da literatura fantástica nacional.

 

Poderia nos falar um pouco sobre a fundação do “Fontes da Ficção”, um site criado por você e pelos autores James Andrade, Nelson Magrini e Sergio Pereira Couto?

R: O Fontes de Ficção surgiu de uma reunião entre eu, James Andrade (Getsêmani: A Verdade Oculta), Nelson Magrini (Anjo: A Face do Mal) e Sergio Pereira Couto (Renascimento: A Lenda do Judeu Errante), tendo como objetivo impulsionar a literatura fantástica brasileira, que engatinhava. Passamos a publicar no blog contos de nossa autoria e de autores convidados, além de notícias e curiosidades do mercado editorial. Durante os seis anos em que estivemos a frente do blog ele se tornou referência no assunto e realizamos encontros físicos, sempre na Livraria Martins Fontes – Avenida Paulista, com a participação de capistas, escritores, leitores, editores e todo tipo de profissional envolvido com livros. Por fim, impossibilitados de darmos continuidade ao projeto, ele foi assumido por L. H. Hoffmann, um fascinado por literatura de ficção. Atualmente o Fontes de Ficção encontra-se meio desatualizado, pois o Hoffmann partiu para empreendimentos mais ousados, sendo um dos sócios e editor da Dragonfly Editorial, mas já nos informou que pretende ressuscitar o Fontes. Esperamos que isso aconteça.

 

Quais são seus planos para 2018? Há um livro novo a caminho?

R: Os desafios para 2018 são enormes! Tenho três originais prontos, aguardando o momento de publicação, e outros seis em desenvolvimento. Os planos são de intensificar a divulgação de meu trabalho, ministrar palestras, participação em eventos literários e a publicação de pelo menos dois títulos. Estamos trabalhando, junto com a editora, a participação na Bienal do Livro de São Paulo e em prêmios literários. Quanto aos novos livros, as negociações com o editor já começaram e estudamos a publicação de uma nova obra pela Livrus no segundo semestre de 2018. O outro título ainda está aguardando decisão, por parte de um patrocinador, para sua publicação. Vamos aguardar e torcer.

 

Se pudesse indicar apenas um livro para as pessoas lerem, qual seria? E por quê?

R: Nossa, são tantos livros bons e que merecem serem lidos, ou melhor, devem ser lidos. Mas já que tenho que escolher um só, vou ficar no gênero que escrevo, que é o terror e indicar “O Exorcista”, de William Peter Blatty. Por quê? Ora, porque é um marco das narrativas de possessão demoníaca. Além do filme ser excelente, o livro consegue ser muito melhor. Só lamento que sua continuação (Publicado aqui, originalmente como “O espírito do Mal” e republicado pela Darkside como “Legião”) não chega nem aos seus pés, devendo ser evitado. É isso. Obrigado pela oportunidade!

 

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Fotos do Lançamento de Vampiresa

 

 

 

 

 

 

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