Mulheres na Direção #5 | Alias Grace (2017)

2017 foi um ano recheado de novas produções televisivas e muitas delas se destacaram por sua qualidade narrativa, estilo e principalmente pelos temas abordados. Outro aspecto que destaco foi a presença de mulheres incríveis envolvidas nessas produções, seja protagonizando estas histórias ou por trás das câmeras, comandando episódios magníficos. 

A minissérie Alias Grace entra para o hall de histórias marcantes lançadas ano passado e é baseada em uma história real e no romance escrito por Margaret Atwood – que também escreveu O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale). Lançada pela Netflix, ela é um tipo de história fantasticamente diferente sobre o poder feminino e traz em sua direção a maravilhosa Mary Harron (diretora de Psicopata Americano) e no roteiro a brilhante Sarah Polley (Histórias que Contamos). Enquanto The Handmaid’s Tale faz um estudo social moldado na  desesperança e dor de existir dentro de um sistema desumanizante, Alias Grace realiza algo muito mais sutil em mostrar uma história também feminista e cheia de camadas sobre como as mulheres são tratadas pelo sistema.

No decorrer de seus 6 episódios, acompanhamos a vida de Grace Marks (interpretada por Sarah Gadon), uma ex-empregada que foi condenada à prisão pelo assassinato de seu patrão, Thomas Kinnear (Paul Gross) e da governanta Nancy Montgomery (Anna Paquin), no Canadá do século XIX. À medida que ela sofre os abusos dos sistemas de prisão e asilo, um pequeno núcleo de espectadores da classe alta defende sua inocência – aparentemente fora do altruísmo do progressismo social. Para isso, o psiquiatra Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft) é chamado para avaliar o estado mental de Grace e verificar a verdade de sua culpa ou inocência.

Grace em toda a sua vida encontra-se impotente: encarcerada, abusada e silenciada, ela flutua como uma curiosidade e como uma “assassina célebre” para o povo da cidade. No entanto, a minissérie desenvolve o poder de Grace engenhosamente mostrando toda sua força para sobreviver àquele lugar e àquelas pessoas. Grace segura todas as rédeas em suas mãos, especificamente por causa da posição aparentemente impotente em que seus “superiores” a colocaram. Assim como Offred/June em The Handmaid’s Tale, Grace sabe que precisa usar da manipulação para sobreviver numa sociedade opressora.

A primeira característica marcante em que a série se constrói é através do sua narrativa: grande parte da história é contada em vários voiceovers, principalmente com Grace, enquanto ela oferece ao Dr. Jordan exatamente o que ele veio descobrir: a versão dela da história. Mas esse é precisamente o cerne da narração da série. Grace é responsável pela narrativa, e ela é uma contadora de histórias magistral. Os padrões particulares de seu discurso – cuidadoso, sério e tão finamente trabalhado como as costuras nas colchas que ela costuma fazer continuamente – vem caracterizar seu controle sobre a narrativa. Enquanto o Dr. Jordan e seus outros benfeitores se apegam a ela por respostas, ela entende que ela mesma controla aquela história e o que eles aprendem e acreditam.

O segundo elemento que dá a Grace seu poder – e é aí que série atinge sua nota mais forte – é o fascínio mórbido com o sofrimento das mulheres. Observamos o Dr. Jordan devorar cada pedaço subsequente da história de Grace – isto é, cada perda subsequente, abuso e devastação – por horas e horas de tempo de tela. Mas simultaneamente, o público se apega aos mesmos detalhes horríveis. Grace torna seu sofrimento algo que fascina seus ouvintes (nós e o Dr. Jordan). Ela o usa como moeda e ao mesmo tempo como acusação para a multidão de aristocratas que, por um lado, estão fascinados com sua célebre assassina e, por outro lado, com todo o espiritismo e a comunicação com os mortos (este detalhe é mostrado brilhantemente numa das melhores cenas da série).

Nada disso seria uma excelente narrativa sem a impressionante precisão das performances de seu elenco, principalmente Sarah Gadon como Grace e Rebecca Liddiard, como a melhor amiga dela, Mary Whitney. As duas atrizes mostraram performances fortes e cativantes que se entrelaçam com as voltas da história e nos dão a compreensão multivalente da narrativa que faz a série brilhar. A direção de Mary Harron é excepcional, com enquadramentos inteligentes e escolhas que enaltecem as expressões de sua protagonista, mostrando como Sarah Gadon é incrível, numa atuação que carrega muitas nuances e profundidade. Além disso, há a fotografia bonita da série assinada por Brendan Steacy e o design de produção feito por Arvinder Grewal, onde juntos são peças fundamentais para a construção da época retratada.

Claro, como em The Handmaid’s Tale, é quase impossível assistir a Alias Grace fora do contexto dos eventos atuais. Com a campanha #MeToo nas mídias sociais e as acusações derrubando homens poderosos de seus pedestais, mas também com a onda de conservadorismo que vê a mulher como subalterna e apenas reprodutora, obras como estas, são essenciais dentro da cultura pop, tocando em temas universais e relevantes. Alias Grace é uma história sobre uma mulher esmagada no fundo da pilha social pelo fato de ser mulher, cujos abusos são muitas vezes os abusos cometidos em mulheres que não têm voz para denunciar esses ataques. Mas a Grace mais velha e maltratada com esses abusos que a roubaram de sua liberdade, usa sua voz – a força narrativa – para manipular suas desvantagens e derrubar os homens que a manipularam – ou pelo menos , para roubá-los especificamente de seu poder sobre ela. E além da história muito bem desenvolvida, Alias Grace traz em seu roteiro pensamentos atemporais nas falas de suas personagens como por exemplo, numa cena onde Grace comenta que a sociedade sempre diz que as mulheres amadurecem mais rápido que os homens. E pensamentos como esse, mostram como essas “convenções” populares são desculpas que a sociedade dá para justificar os abusos sofridos pelas mulheres desde muito jovens. E é com reflexões como esta que considero Alias Grace (assim como The Handmaid’s Tale), uma obra fundamental para ser assistida.

 

Trailer legendado:

FICHA TÉCNICA:

Gênero: Drama
Direção: Mary Harron
Roteiro: Sarah Polley
Elenco: Sarah Gadon, Edward Holcroft, Rebecca Liddiard, Zachary Levi, Kerr Logan, Anna Paquin, Paul Gross, David Cronenberg, Stephen Joff, Sarah Manninen, Alice Snaden, Elizabeth Sauders, Martha Burns, Will Bowes, Jonathan Goad, Claire Armstrong, Kate Ross, Michael Therriault, Kirstin Rae Hinton, Ross Manson, Diane Flacks
Produção: Sarah Polley, D. J. Carson

Fotografia: Brendan Steacy

Design de produção: Arvinder Grewal

Figurino: Simonetta Mariano

Trilha Sonora: Jeff Dana, Mychael Danna

Número de episódios: 6

País: Canadá

Ano: 2017

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